quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O Oriente Médio Existe?

Há muito tempo os termos “democracia” e “Oriente” não eram vistos numa mesma frase. Alguém se lembra de quando foram? Bem, talvez citem a velha Guerra do Golfo como uma “tentativa americana de democratizar regiões que não conseguem gerir a si próprias”. Os mais atentos podem chamar de “invasão neo-imperialista descarada”. Por outro lado, quem sabe, levantem suas vozes para, refrescando a memória, citarem a recente invasão ao Iraque como um avanço democrático, uma nova chance de “colocar ordem na casa”. Alheia, é claro.

Mas a maioria, com certeza, se lembrará melhor dos últimos noticiários sobre a luta das populações egípcias, líbias e sírias contra seus governantes tiranos. Ajudados por importantes jornais ao redor do mundo, olharão para o longínquo Oriente Médio (vale dizer que a China fica no Extremo Oriente) com a esperança dos bons ocidentais que são: todos muito confiantes neste que parece ser um sopro tardio, mas mesmo assim sopro, dos ideais revolucionários franceses (Liberté, Égalité, Fraternité) sobre as terras de Maomé.

E aqui uso o termo “terra de Maomé” porque poucas coisas caracterizariam tão bem o imaginário ocidental sobre o oriente quando a citação ao maior profeta do Islã. Para não ser taxada de politicamente incorreta, abstenho-me de nomeá-la “terra das odaliscas”, ou “terra dos terroristas”. É muito provável, porém, que, mais que “terra de Maomé”, essas duas outras nomenclaturas sejam mais plausíveis para grande parte dos leitores.

O que não justifica o erro de se acreditar nelas. É disso que trata este texto. Um protesto contra a contínua redução a que é submetido o mundo Oriental. Mundos Orientais, aliás, dada a diversidade de povos, culturas e hábitos coexistindo numa região semelhante. Região esta que não existia geograficamente antes de ser criada pelo explorador europeu, muitos séculos atrás. “O Oriente é uma invenção do Ocidente”, disse o historiador Edward Said, humanista autodeclarado. Uma afirmação que a princípio parece confusa, mas que se esclarece com a devida atenção.

Tudo que sabemos sobre o “mundo oriental”, sua cultura, religião, organização, provém de uma visão eurocentrista herdada há muito, tanto por um hábito político, quanto econômico ou social. Para aqueles já familiarizados, ou vitimados por este tal “eurocentrismo”, a afirmação pode soar redundante. É hora de por a redundância à prova, então.

Alguém já se perguntou que tipo de democracia os orientais desejam para si? Será essa mesma democracia antimachista, antihomofóbica, “altamente igualitária”, à qual nós, ocidentais estamos acostumados? E se não for, temos o direito de chamá-la de antidemocrática?

Os recentes movimentos populacionais antiditatoriais de países como Síria e Líbano talvez não signifiquem o “sopro de democracia” tão alardeado pela mídia mundial. Significam, mais provavelmente, a necessidade de um povo gerir a si mesmo, sem o domínio sufocante de tiranos que se mantém há décadas no poder. Bem como necessidades de autonomia junto às todas-poderosas nações ocidentais. O Oriente não quer ser ocidental. O oriente quer lutar por sua orientalidade num “mundo de fronteiras cada vez menos visíveis”, segundo Octavio Ianni.

Isso também pode soar confuso, uma vez que os grandes países reafirmam constantemente sua nacionalidade – citar os Estados Unidos é uma praxe. Num mundo globalizado, porém, se por um lado os países orientais não podem – e não conseguiriam, ouso dizer – isolar-se dos demais para manter imaculada sua cultura, os grandes Estados-Nações, também não podem comportar-se como “libertadores dos outros povos”.

Esta é uma máxima da academia, para qualquer curso de Ciências Humanas: o conceito de civilização superior é retrógrado. O que existem são civilizações coexistindo entre si, lutando pela própria manutenção, e aqui sou evidentemente influenciada por Samuel P. Huntington em sua obra “O Choque de Civilizações”. A então denominada “Civilização Oriental”, complexa em si mesma, estruturada segundo suas próprias leis, quer o direito de ser Oriental, sem que a nossa “Civilização Ocidental” force seus ideais supostamente libertários goela abaixo.

E se admitimos este direito, então também devemos nos permitir conhecer verdadeiramente – na medida em que “conhecer verdadeiramente” um povo não soa prepotente – a cultura oriental, permitir que ela também nos seja apresentada, assim como a nossa tem sido “apresentada” forçosamente a ela durante séculos.

Tal permissão inclui, em primeiro lugar, questionar as informações reducionistas e quadradas que nos são expostas diariamente pelos telejornais mundiais. Requer que tentemos compreender de fato processos políticos tão distintos dos nossos e só concordar com uma “ajuda” externa a esses países quando ela for desejada pelos próprios habitantes. Gostaria de terminar citando um querido pintor espanhol. Se, como disse Goya, “o sono da razão produz monstros”, então devemos nos lembrar que a razão é um conceito ocidental, e já foi usado excessivas vezes para exterminar e explorar outros povos.

P.S.: Tal obra foi concebida pelo pintor espanhol durante a invasão francesa na Espanha, quando o exército da Revolução de 1789 quis libertar o povo espanhol do domínio monárquico e clerical.

3 comentários:

Excelente texto! Uma visão que foi além dos estereótipos sobre democracia e oriente e conseguiu oferecer uma leitura crítica sobre a contemporaneidade. Parabéns!

Ótimo texto. Repetiria o que o Luciano disse.

"O Oriente é invenção do Ocidente" e "A América inventou a Europa como a concebemos".
De repente vimos o outro em nossa própria casa...

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