"Laços fora soldados! A corte portuguesa quer mesmo é escravizar o Brasil! Cumpre portanto a declarar: INDEPENDÊNCIA OU MORTE!"
- Tá, mas não foi bem assim não...
Desde o Ensino Fundamental aprendemos a velha lição de que no dia de 07 de setembro de 1822, o Príncipe Regente do Brasil, D. Pedro I, montado em seu cavalo desembainha seu sabre e grita às margens do riacho Ypiranga: "Independência ou Morte!" Proclamando assim a "Independência do Brasil". Seguimos com essa concepção até mais ou menos o Ensino Médio - os que não esquecem, pois os que não se importam ou os que detestam História geralmente largam essa concepção bem antes - e depois seguimos nossas vidas com a idéia de que o Brasil se tornou independente de Portugal nas mesmas circunstâncias em que nos passaram os livros. Carregamos essa idéia junto com aquela de que o Brasil foi "descoberto" por um português chamado Pedro Alvares Cabral em 22 de abril de 1500.

O que muitas pessoas ignoram é que essa data foi uma data qualquer no calendário, uma data forjada com o intuito de criar uma identidade para um país que surgia desfragmentado em várias províncias. Tanto que na época da ruptura, que chamamos independência, algumas províncias permaneceram fiéis ao novo governo do Rio de Janeiro e outras a Portugal, como é o caso da província do Grão-Pará. A data 7 de setembro não significou muito para os que viviam na época, pois a adesão foi feita por costuras políticas posteriores à data. Para entender isso basta imaginar que cada província era como um país à parte, todas pertenciam a Portugal, mas eram como vários países com identidades provincianas, ou seja, não havia a menor noção de unidade, não se considerava o Império do Brasil como algo unido e coeso. Logo fica fácil entender que cada "pequeno país" que era a Bahia, as Minas Gerais, etc. optou por aderir ou não ao governo do Rio de Janeiro. Não houve uma luta popular, salvo em momentos isolados, ou um verdadeiro sentimento patriótico de liberdade e nação, pois nação, simplesmente não existia.
As elites portuguesas que se instalaram no "Brasil" com a chegada da Família Real em 1808 mantiveram sua hegemonia graças á abertura dos portos; antes da abertura, que ocorreu com a vinda da Família Real a colônia, só podia comercializar os produtos com portugueses da metrópole, a partir disso então eles puderam comercializar com a Inglaterra também, o que aumentou seu lucro. Essas elites firmaram-se e expandiram-se enquanto os comerciantes da metrópole enfrentaram várias crises que culminaram com a Revolução do Porto. Essa revolução em Portugal visava o rebaixamento do Brasil à condição de colônia e visava entre outras coisas o retorno do monopólio dos produtos. Em resumo, isso significaria grande perda para as elites aqui instaladas, então para garantir a manutenção do status quo essas elites costuram acordos, forjaram ações e finalmente romperam com Portugal. Podemos dizer então que a Independência foi apenas superficial ou figurativa, pois as mesmas elites que estavam no poder antes, continuaram no poder logo depois. Os mesmos portugueses só que agora orbitando em torno de D. Pedro I e não mais de D. João IV. A estrutura em si não mudou com a ruptura.
PATRIOTISMO
Há outro grande equívoco que gostaria de falar bem por alto hoje. Quando você lê ou ouve a palavra "Brasil" que imagem vêm à sua cabeça? O mapa? Sim, o mapa, as fronteiras, as velhas fronteiras que nos separam dos paraguaios, argentinos, colombianos... Mas eu pergunto, como prender uma idéia, uma identidade, uma cultura ou um sentimento num traçado imaginário? A Nação Brasil é aquele mapa? O País Brasil é aquele mapa? Aquelas fronteiras existem? Estavam aqui na época dos índios?
Forjam-se identidades, forjam-se idéias e pátrias num modelo conhecido como Estado-Nação, mas esse modelo simplesmente não pode existir na prática, pois a noção de pertencimento de cultura e identidade é muito mais subjetivo, simplesmente não se pode embarreirá-lo em uma fronteira imaginária. O que nos torna brasileiros? O simples fato de nascermos dentro dessas fronteiras?
O mesmo ocorreu com o7 de setembro, foi forjado. Dentre várias outras datas que poderiam ser utilizadas para caracterizar a independência como a Conjuração Pernambucana ou a Independência da Bahia - luta armada onde um país recém-nascido e praticamente sem exército, contou com a força de caboclos e escravos para expulsar os portugueses do Recôncavo Baiano em 2 de julho de 1823 - escolheu-se o 7 de Setembro e imprimiu-se a figura do herói a D. Pedro I, sim a figura do herói é fundamental nesse momento.
- Mas apesar disso tudo há algo que é mais alarmante.
Essas datas foram criadas para que se lembre de algo, alguma ideia, mas as pessoas só se lembram do feriado. Fala-se muito em melhorar o Brasil, melhorar as condições de vida das pessoas, porém essas melhorias não virão sem o patriotismo, o verdadeiro patriotismo. Traduzo isso como o amor que se sente à pátria ,não ao estado ou ao mapa, e entendo pátria como o conjunto cultural, humano e físico de determinada região na qual o sujeito se identifique. Não se trata de competir, de querer que o Brasil simplesmente se sobreponha às demais nações, se trata de amar aquilo que compartilhamos no nosso dia a dia, com pessoas próximas a nós, amarmos e zelarmos por aquilo e aquele que está conosco todos os dias e aquilo que pertence ao povo, se trata de zelarmos pelos aspectos culturais da qual fazemos parte (e que nem por isso os tornam superiores ou mais importantes que os aspectos dos quais não fazemos parte).
Na verdade a humanidade é em si mesma uma só nação. O amor é algo fluído e universal e uma das maiores ilusões que o homem moderno tem é a ilusão de separação. Sou isso ou aquilo, sou brasileiro mas não gosto do sotaque do sul, torço para tal time e não torço para outro...essas separações são meramente ilusórias, em essência todos somos um, e arriscaria dizer que em essência, somos todos extensão do outro e do próprio Universo. As estrelas são nossas irmãs, o sol e a lua nossos companheiros, logo não há divisões na Natureza, na Realidade, tudo é um em si. Porém não posso aprender a amar quem eu não conheço se não amo quem eu conheço, não posso aprender a amar quem eu não me identifico se não amar primeiro a quem me identifico, não posso amar minha família se não me amo, por isso o patriotismo é um meio termo para o amor verdadeiro, para a verdadeira igualdade, é como uma escada que você utiliza para subir a um outro nível. O Homem é um ser social e sempre haverão gupos, clãs, sociedades que se unirão para viver melhor e essas pessoas devem sempre amar a si mesmas e àqueles que compartilham com ele, amar nas pequenas diferenças dos que fazem parte daquele circulo, para então, amar aqueles que não fazem parte, mas são igualmente importantes. Isso é patriotismo.
- Libertar-se das prisões que você mesmo se impõe, isso é independência.







2 comentários:
Professor Gussss!
Ótima aula. Se tirarem todas as mentiras da história da humanidade, o que restará?
Mas como já disse o finado Renato, o Russo, "vamos celebrar a estupidez humana... vamos celebrar o nosso estado que não é nação..." e por aí vai.
Vamos celebrar a ignorância, já que o conhecimento só resultou nesta realidade que vivemos...
Ligue não, hoje estou otimista...rs
Independência ou morte? Ficar vivo é questão de sorte.
Ótimas palavras, parabéns!
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